Ritos de iniciação, santuários obscuros, códigos para reconhecimento
mútuo e senhas: tudo o que se passa entre os maçons é oculto e
misterioso, certo? Errado!
por Olivier Tosseri
Monumento em Florianópolis SC A maçonaria nunca pretendeu esconder sua existência de ninguém.
A maçonaria nunca escondeu sua existência nem os seus objetivos.
Surgida na Escócia do século XVII e rapidamente transferida para a
Inglaterra, ela se definiu desde o início como uma ordem essencialmente
filosófica e filantrópica. Pela difusão de um ensinamento esotérico, sem
dogmas, o objetivo declarado do grupo é contribuir para o progresso da
humanidade, e seus membros são encorajados a praticar o bem ao próximo e
a promover a melhoria espiritual e moral.
Os ramos da ordem
que se ligam às corporações de pedreiros têm, de fato, lendas de origem
que remontam ao Templo de Salomão, às pirâmides do Egito ou aos
construtores de catedrais da Idade Média. Todavia, em pouco tempo esses
grupos deixaram de ter ligação com a profissão de pedreiro e passaram a
agregar, principalmente, artesãos e pequenos comerciantes. Estruturados
em Londres e organizados em “obediências” ou “grandes lojas”
(agrupamentos de várias lojas), esses locais mais se pareciam com as
sociedades fraternas de beneficência e ajuda mútua do período. Esse
também foi o momento em que nasceu a maçonaria “especulativa” ou
“filosófica”, que se espalhou pela Europa e por suas colônias. A Grande
Loja Francesa, por exemplo, foi criada em 1738 e abrigou muitos
burgueses, filósofos e escritores como Goethe ou Voltaire.
A
reputação de “sociedade secreta” veio por causa dos inúmeros rituais que
foram sendo criados com o tempo. Eles não estão escritos em lugar
nenhum e consistem em senhas de reconhecimento mútuo e, sobretudo, em
uma série de provas de iniciação: depois de se tornar irmão ou irmã, o
“aprendiz” não deve mais falar, para poder se impregnar do saber dos
mais velhos; em seguida, ele pode se tornar um “companheiro” e,
finalmente, ascender ao nível de “mestria”.
Desde sua criação, a
maçonaria enfrenta uma série de oposições políticas e religiosas que
nunca deixaram de estigmatizá-la e desacreditá-la. Apesar de inúmeras
lojas serem de inspiração cristã, a Igreja decidiu que os maçons
difundiam o relativismo religioso e divulgou inúmeras bulas papais que
chegaram ao ponto de ameaçá-los de excomunhão.
No campo da
política, as monarquias do século XVIII lutaram contra as exigências por
mais liberdade e igualdade professadas por vários dos membros da ordem.
Os marxistas, por sua vez, condenaram o que consideravam um movimento
burguês, e o Partido Comunista Francês chegou a pedir aos seus adeptos
que deixassem de frequentar as lojas. Os grupos de extrema direita e
antissemitas também embarcaram nessa onda de hostilidade: os nazistas,
por exemplo, mataram entre 80 mil e 200 mil maçons franceses durante a
ocupação do país, além de ordenar a deportação dos demais.
Atualmente, a maçonaria é vista como uma ampla rede social, conduzida
pelos interesses de seus membros e sujeita, portanto, a favorecimentos,
conflitos e práticas duvidosas. Discreta, mas não secreta, a ordem cada
vez mais se livra do estigma de “obscuridade”, e até membros de governos
em todo o mundo já encontraram espaço para revelar publicamente que
pertencem ao grupo.
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